TÓQUIO – O skate foi um dos destaques da Olimpíada de Tóquio. Para quem não conhecia esse esporte, uma novidade bem agradável, com disputas emocionantes que proporcionaram um espetáculo visual singular. Foi também motivo de muita alegria para os brasileiros e, especialmente, os maranhenses, orgulhosos que ficamos com a performance e a simpatia de Rayssa Leal, verdadeira fera da modalidade street.

O skate olímpico realmente despertou “o melhor de nós”, como prega a vinheta global, pelas disputas sadias, o clima de camaradagem entre os concorrentes, nada de desafio de vídeo, catimba ou qualquer tipo de estresse tão caro a quase todos os esportes.A galera estava realmente se deliciando com as rampas e corrimãos, e vencedores e vencidos dividiram a mesma alegria, a de mostrarem ao mundo o quão especial é essa prática.

Mas um fato chamou a atenção e foi objeto de análise do jornalista Demétrio Vecchioli, da coluna Olhar Olímpico, a quem aqui reverberamos: as idades dos praticantes.Não se trata de discussão sobre trabalho infantil, pois há competições esportivas regularizadas para todas as idades, com a participação voluntária dos jovens, bem diferente de ser obrigado pela família a largar a escola para cumprir jornada de trabalho para o qual nem formação a pessoa tem – até porque não teria idade para fazer qualquer curso ou treinamento para isso.

Trata-se de uma reflexão em duas esferas: a da convivência em grupo e a esportiva, propriamente dita. Vecchioli levanta a tese – ressaltando sua alegria pelo sucesso da Fadinha – de que a imperatrizense (e isso poderia ser aplicado também às outras medalhistas de 13 anos, a japonesa Momiji Nishiya e a anglo-japonesa Sky Brown) poderia fazer aos 18 ou 25 anos o que faz aos 13, mas quando ela faria o que deveria estar fazendo aos 13 anos (ser uma adolescente sem o peso dos compromissos profissionais, pressão pelas vitórias, retorno a patrocinadores, etc)?

O jornalista conjectura uma espécie de infância perdida, o qual consideramos um problema relativo, uma vez que a menina parece conciliar bem as rotinas do skate com a normalidade do dia-a-dia de quem tem 13 anos.Mas na esfera da convivência, há certa razão em não considerar o mais apropriado jovens de 13 anos dividirem os mesmos espaços de atletas mais velhos, nos treinamentos, viagens, rodas de conversa. Poderia estar havendo aí uma maturidade forçada e precoce: a exposição involuntária a hábitos de adultos. Crianças que veem adultos bebendo, contando piadas sujas, falando palavrão e coisas do tipo.

A presença constante dos pais de Rayssa parece tornar o ambiente da nossa medalha de prata um pouco mais protegido, mas o alerta deve existir.Por fim, no âmbito esportivo, Vecchioli considera desigual a disputa sem divisão de idades, e com vantagem para os mais jovens. De fato, os resultados mostraram a maior aptidão dos adolescentes, que são mais leves e ágeis e, pelo tamanho menor, conseguem se equilibrar com mais eficiência no shape do skate.

A consequência disso é uma bola de neve: os vencedores são cada vez mais jovens, o que estimula o interesse de mais crianças praticarem, aumentando o quantitativo de menores de idade no circuito e, logo, os riscos dos temores anteriores.Nessa seara, talvez fosse o caso do skate olímpico dividir as categorias por idade (abaixo de 18 e acima de 18). As disputas seriam ainda mais equilibradas, os ambientes mais adequados e a esportividade mais respeitada.

BNC Esportes

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