SÃO PAULO – A greve nacional dos entregadores de aplicativo realizada entre segunda (31) e terça-feira (1º) foi a maior já registrada pela categoria. A mobilização paralisou centros de distribuição e bloqueou pontos de coleta em ao menos 60 cidades brasileiras, incluindo capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Fortaleza e Curitiba.
Diante da ausência de resposta concreta por parte do iFood, os trabalhadores prometem intensificar as mobilizações.
Em São Paulo, epicentro da paralisação, os entregadores bloquearam shoppings como Eldorado, Morumbi, West Plaza e Santana Park, além de centros comerciais na zona sul. Segundo levantamento da Abrasel-SP, empresas que operam exclusivamente pelo iFood registraram queda de até 100% nas entregas. Aquelas que utilizam múltiplas plataformas também relataram prejuízos significativos, com redução de até 80% na comparação com uma segunda-feira comum.
A pauta dos trabalhadores inclui quatro reivindicações principais:
•aumento da taxa mínima de entrega de R$ 6,50 para R$ 10, •reajuste da taxa por quilômetro de R$ 1,50 para R$ 2,50, •limite de 3 km para entregas de bicicleta e •pagamento integral por corrida mesmo quando há agrupamento de pedidos. Nenhuma das demandas foi atendida até o momento pelas plataformas.
Durante a segunda-feira (31), uma comissão de nove entregadores foi recebida na sede do iFood em Osasco (SP), após horas de manifestação na porta da empresa. A reunião foi intermediada pela Polícia Militar e ocorreu sem gravação. De acordo com os trabalhadores, os representantes da empresa afirmaram que levariam as pautas à diretoria, mas não apresentaram propostas nem definiram prazo para retorno.
Em nota, o iFood declarou que “mantém sua disposição ao diálogo” e afirmou que “estuda a possibilidade de reajuste para 2025”. A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa empresas como iFood, Uber Flash, Lalamove e 99 Entrega, disse que “respeita o direito de manifestação” e citou um estudo do Cebrap que aponta aumento da renda média dos entregadores.
As lideranças do movimento, no entanto, contestam os dados divulgados pelas empresas e denunciam manipulações nos critérios utilizados para calcular a remuneração por hora. Também circularam durante a paralisação notícias falsas sobre um suposto reajuste para R$ 7,50, o que foi desmentido oficialmente pelo iFood.
Para Valter Ferreira, presidente do Sindimoto-RS, a mobilização marca um novo patamar de organização da categoria. “Nunca se viu uma mobilização nacional desse porte. Mostra que os trabalhadores estão cansados e querem ser ouvidos de verdade”, afirmou.
Ferreira destacou que, embora o número de motoboys em protesto ainda não represente a maioria da categoria, os atos conseguiram causar impacto real nas operações das empresas. “Foi um passo importante. Agora é pressionar por respostas concretas”, disse.
No Rio Grande do Sul, o sindicato apresentou uma pauta própria ao Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região, que inclui o pagamento de R$ 15 por corrida mínima. O valor considera a remuneração da hora trabalhada, aluguel da moto, combustível, alimentação e segurança social. Uma nova audiência com o iFood está marcada para o dia 23 de abril, no TRT-4.
“O iFood, a Rappi, a 99 e a Uber criaram um modelo onde jogam os trabalhadores na clandestinidade. Eles não cumprem a CLT, nem as leis específicas da profissão. E quem paga a conta é o trabalhador e o INSS, com tantos afastamentos por acidente”, afirmou o sindicalista.
Ferreira também lamentou a falta de regulação nacional. “Estamos no terceiro ano do governo e nada avançou. Espanha e Inglaterra já enfrentaram esse problema. Por que o Brasil não consegue?”, questionou.
O dirigente criticou as promoções oferecidas pelas plataformas durante a greve, que na avaliação do sindicato têm como objetivo enfraquecer o movimento. Para ele, as empresas apostam na divisão da categoria e tentam deslegitimar lideranças.
“Enquanto a gente se divide, quem ganha são as plataformas. Precisamos unificar nosso discurso e construir uma pauta única que represente o conjunto da categoria”, concluiu.
Uma nova paralisação nacional já está sendo articulada para 2 de maio. A categoria deve manter a pressão pública até que as empresas apresentem propostas formais de mudança nas condições de trabalho. O governo federal ainda não se manifestou sobre a greve. A tentativa de regulamentação encerrada em 2023 terminou sem consenso entre empresas e representantes dos trabalhadores.
BNC Brasil