Arte de curar, arte para viver (IV)

GRANDE ILHA – A revista Istoé, em longa reportagem intitulada “A arte ajuda a medicina”, publicada originalmente em 2010,  e à disposição na internet, destaca a iniciativa dos  médicos José Geraldo Speciali e Armando Bezerra que resolveram associar  as esculturas e pinturas famosas às aulas, para levar os alunos a refletirem sobre a impressão de artistas renomados acerca dos males que atingem o corpo humano. Baco, Caravaggio, Leonardo da Vinci, Van Gogh e outros convivem de forma harmoniosa e pacífica com os estudos regulares da academia.

Trabalho  digno de registro também é o que desenvolve Renata Calheiros Viana, que mantém, na rede mundial de computadores, o blog http://medicineisart.blogspot.com.br/, no qual se dedica a analisar a história médica de ícones sagrados da literatura brasileira, como Machado de Assis, Guimarães Rosa e do compositor Noel Rosa.

A genial banda brasileira Titãs gravou uma verdade nos versos de uma música muito conhecida. Não queremos apenas comida, queremos também diversão e arte, conclama. Afinal, como já pregava Paulo, o corpo exterior é devorado dia a dia pelo tempo, pelas fragilidades e vicissitudes. Mas a alma, essa morada interior, se bem cuidada pelo alimento incorpóreo que a arte proporciona, rejuvenesce a cada dia.

Insisto: médicos e estudantes da Medicina não podem perder de vista essa perspectiva, uma vez que lidam diariamente, mais do que outros profissionais, com a efemeridade da vida. Interessante a visão que o intelectual brasileiro Gilberto Freyre – autor do magistral Casa Grande & Senzala–  traça em seu livro Médicos, doentes e contextos sociais: uma abordagem sociológica, reeditado no Brasil, em 1983. Àquela época, o escritor acenava para um saber que fosse além das cátedras, das fórmulas previstas, para os diagnósticos exatos. Que esse saber, pontuava Freyre, convivesse em harmonia com outros saberes ímpares nessa jornada tão árdua que é aliviar males e curar algumas vezes, entre os quais a arte exsurge como de fundamental importância.

Uma educação médica humanística encerra dois componentes, um afetivo e outro cognitivo, que devem estar unidos se quisermos ter médicos competentes, atenciosos e conhecedores, afirma Edmund Pellegrino, um dos maiores expoentes da ética médica de todos os tempos e ainda pouco conhecido no Brasil, falecido em 2013.

Os gregos já sabiam dessa verdade.  Na mitologia desse povo, Asclépio (ou Esculápio), filho do deus Apolo, fez fama como curador e com a esposa Epione teve os filhos Aglaea (responsável pela beleza que o saudável possui), Akesa (deusa da convalescença), Iaso (deusa da pronta recuperação), Meditrina (deusa da longevidade) e Higeya(deusa da higiene) e por fim, Panaceia (deusa a quem se atribui o dom de um remédio universal para curar todas as doenças).

Todos esses deuses fazem o repositório dos conhecimentos necessários a que o profissional da Medicina deve ter acesso para exercer seu ofício de forma plena. Não à toa Hipócrates reconhece: medicina, dentre todas as Artes, é a mais nobre; mas, devido à ignorância de seus praticantes, e daqueles que, impensadamente, formam um julgamento a respeito deles, ela está, no presente, muito atrás de todas as outras artes. É diante da possibilidade do fim que criamos uma existência que valha a pena, afirmou a jornalista Eliane Brum.

Saber-se finito e limitado é um bom caminho para a o aprendizado contínuo que está para além dos hospitais e das salas de aulas. Sociedades médicas de escritores têm se instituído ao redor do mundo, saraus poéticos, artísticos e literários abrem as portas para despertar novos talentos naqueles que já abraçaram a arte de curar. É preciso também escolher uma para viver.

POR Natalino Salgado

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