MONTES ALTOS – A elevação do volume de água do rio Pindaré é consequência direta das chuvas intensas registradas ao longo do mês de dezembro em áreas do interior do Maranhão, sobretudo nas regiões onde estão localizadas as nascentes do rio. Dados de monitoramento apontam que as precipitações se concentraram principalmente entre os municípios de Sítio Novo e Montes Altos, resultando em um aumento significativo do nível das águas.
Em relação ao mês de novembro, o rio já apresenta quase dois metros a mais no volume de água, cenário que tem alterado de forma expressiva a rotina das populações ribeirinhas. A cheia afeta diretamente a mobilidade, a economia local e evidencia a dependência histórica da região em relação ao rio como via de transporte e fonte de renda.
Barqueiros responsáveis pela travessia entre Monção e Pindaré Mirim relatam prejuízos financeiros. O alargamento do curso do rio aumenta o tempo das viagens e eleva o consumo de combustível, encarecendo o serviço e reduzindo a margem de lucro desses trabalhadores. Trata-se de um impacto econômico direto, que atinge principalmente pequenos prestadores de serviço, sem reservas financeiras para absorver custos extras.
Outro fator que gera preocupação é o aumento da circulação de embarcações esportivas em alta velocidade durante o período de cheia. Em anos anteriores, esse cenário levou a Prefeitura de Pindaré Mirim a adotar medidas restritivas ao tráfego de motos aquáticas e lanchas, após registros de riscos à segurança de pescadores, barqueiros e moradores. A repetição do problema reacende o debate sobre fiscalização, ordenamento do uso do rio e responsabilidade do poder público municipal.
Além dos impactos no transporte, cresce a apreensão em relação às obras do cais de Pindaré Mirim, iniciadas em dezembro de 2023 e ainda em execução. Com a elevação do nível do rio, moradores temem que a área da construção seja parcialmente submersa durante o pico da enchente, o que poderia comprometer a estrutura já executada e gerar prejuízos aos cofres públicos. O receio levanta questionamentos sobre planejamento, calendário das obras e adaptação de projetos de infraestrutura às condições climáticas da região.
Cheia também afeta a pesca artesanal
Entre os mais impactados pela cheia estão os pescadores artesanais, que dependem diretamente do rio Pindaré para sobreviver. Entre dezembro e março, a pesca é suspensa devido ao período da piracema, fase essencial para a reprodução dos peixes. Nesse intervalo, as famílias dependem do seguro-defeso, benefício federal que garante renda mínima durante a proibição da atividade.
No entanto, pescadores relatam atrasos no pagamento, o que agrava ainda mais a vulnerabilidade social dessas comunidades em um momento já marcado por dificuldades climáticas. Em nota, o Ministério da Pesca e da Aquicultura informou que a demora ocorre em razão da transferência da gestão do benefício, que deixou de ser responsabilidade do INSS e passou para o Ministério do Trabalho, estando o sistema ainda em fase de ajustes.
Do ponto de vista político, a situação evidencia a necessidade de maior articulação entre governos federal, estadual e municipal para garantir respostas rápidas às populações afetadas. A cheia do rio, fenômeno recorrente na região, reforça a urgência de políticas públicas permanentes voltadas à prevenção de impactos econômicos, à proteção social dos trabalhadores ribeirinhos e ao planejamento de obras públicas compatíveis com a realidade ambiental.
A Secretaria de Estado da Infraestrutura (Sinfra) informou que as obras do cais seguem dentro do cronograma e que, com a chegada do período chuvoso, os serviços passam a se concentrar na parte superior da estrutura, onde estão previstas intervenções urbanísticas. Ainda assim, o avanço das águas mantém a população em alerta e amplia a cobrança por transparência, fiscalização e responsabilidade na gestão dos recursos públicos diante das cheias do rio Pindaré.
BNC Economia
