Inflação em desaceleração abre espaço para crescimento, mas exige escolhas econômicas mais ousada
BRASÍLIA – A nova revisão para baixo das expectativas de inflação para 2026, divulgada no Boletim Focus desta segunda-feira (12), deve ser vista como uma oportunidade — e não apenas como um dado técnico do mercado financeiro. A projeção de IPCA em 4,05%, ainda que modesta, sinaliza que a economia começa a responder aos esforços de estabilização, abrindo margem para um debate mais progressista sobre o uso da política econômica: menos centrada exclusivamente no combate à inflação e mais voltada ao desenvolvimento, ao emprego e à redução das desigualdades.
Mesmo com a inflação projetada ainda acima da meta central de 3%, é relevante notar a tendência de queda consistente nas últimas semanas. Isso ocorre em um contexto no qual o IPCA de 2025 fechou em 4,26%, dentro do intervalo de tolerância definido pelo Conselho Monetário Nacional. Ou seja, não há descontrole inflacionário — há, sim, pressões pontuais, especialmente em transportes e saúde, setores diretamente ligados ao custo de vida da população e que demandam políticas públicas mais ativas, e não apenas juros elevados.
Sob uma ótica progressista, chama atenção o fato de que a política monetária siga extremamente restritiva, com a Selic mantida em 15% ao ano, o maior patamar desde 2006. Embora o mercado projete uma redução gradual até 12,25% em 2026, os juros seguem funcionando como um freio ao crescimento, ao investimento produtivo e à geração de empregos. Juros altos penalizam pequenas e médias empresas, encarecem o crédito para as famílias e ampliam a transferência de renda para o setor financeiro.
O crescimento econômico projetado — 1,80% em 2026 e 2027 — reforça essa preocupação. Trata-se de um ritmo insuficiente para enfrentar desafios estruturais como pobreza, informalidade e baixo investimento em infraestrutura. A economia brasileira parece presa a um ciclo de baixo crescimento, no qual o receio inflacionário se sobrepõe à necessidade de expandir a capacidade produtiva e fortalecer políticas de desenvolvimento.
No câmbio, a expectativa de dólar em torno de R$ 5,50 reflete não apenas fatores externos, mas também a falta de uma estratégia nacional mais clara de reindustrialização e agregação de valor. Um projeto econômico progressista passa, necessariamente, por fortalecer a indústria, investir em ciência, tecnologia e transição energética, reduzindo a vulnerabilidade externa do país.
A desaceleração gradual da inflação deveria ser o ponto de partida para uma mudança de postura: combinar responsabilidade fiscal com responsabilidade social. Isso significa usar o espaço econômico disponível para ampliar investimentos públicos, fortalecer serviços essenciais e estimular o mercado interno. A estabilidade de preços é importante, mas não pode ser um fim em si mesma. Sem crescimento inclusivo, a economia até pode parecer equilibrada nos relatórios, mas continuará distante da realidade da maioria da população brasileira.
BNC Economia
