PAÇO DO LUMIAR – O cinema brasileiro vive um daqueles raros momentos em que talento, reconhecimento internacional e políticas públicas finalmente caminham na mesma direção. Prêmios, indicações e seleções em festivais como Cannes, Berlim, Globo de Ouro e Oscar não surgiram por acaso nem representam um ponto fora da curva. Ao contrário: são a consequência direta de décadas de construção institucional, investimento público e insistência de uma cadeia produtiva que resistiu a ciclos de euforia e de quase apagamento.
É tentador tratar o atual sucesso como um “renascimento”, mas essa narrativa simplifica demais uma trajetória complexa. O cinema brasileiro nunca deixou de existir. O que houve foram interrupções — políticas, econômicas e simbólicas — que comprometeram sua continuidade. Quando o Estado se ausenta, o audiovisual sente primeiro. Quando retorna, os resultados não aparecem de imediato, mas, quando vêm, são consistentes.
A presença simultânea de obras de diferentes regiões e gerações em grandes vitrines internacionais revela algo fundamental: o Brasil não está sendo reconhecido por um único filme ou por um único autor, mas por uma cinematografia diversa, viva e em constante renovação. Do Rio a Pernambuco, de São Paulo a Minas Gerais, o que se projeta é um país múltiplo, capaz de dialogar com o mundo sem abrir mão de suas especificidades.
Esse reconhecimento, porém, não garante sustentabilidade por si só. O aplauso internacional não se converte automaticamente em público nas salas, nem em estabilidade para quem trabalha no setor. A pandemia, a concentração do mercado exibidor e o avanço das plataformas de streaming aprofundaram um desafio histórico: fazer o filme brasileiro chegar ao espectador comum e permanecer em cartaz.
Nesse contexto, insistir na importância das políticas públicas não é ideologia, é pragmatismo. Instrumentos como o Fundo Setorial do Audiovisual e a Lei Federal de Incentivo à Cultura cumprem funções distintas e complementares dentro de um ecossistema industrial. Reduzi-los a slogans ou distorções é ignorar que o audiovisual gera emprego, movimenta o turismo, ativa serviços e projeta o país internacionalmente. Não se trata apenas de cultura — trata-se de economia criativa e soberania simbólica.
A fala recente de artistas e realizadores em defesa desses mecanismos não é corporativismo, mas memória histórica. Sempre que houve descontinuidade, o Brasil perdeu não só filmes, mas gerações inteiras de profissionais. Sempre que houve estabilidade, os resultados apareceram — ainda que com atraso.
A nova geração que hoje chega a festivais como Berlim representa talvez o sinal mais promissor desse momento. Jovens cineastas, animações inéditas, documentários ousados e filmes de gênero indicam que o cinema brasileiro não está apenas celebrando conquistas passadas, mas construindo futuro. Isso só se mantém com políticas de longo prazo, investimento contínuo e compromisso com toda a cadeia — da produção à distribuição, da formação de público às salas de exibição.
O Brasil, como se diz, é a “bola da vez”. Mas o verdadeiro desafio é deixar de ser exceção e passar a ser regra. Mais do que ganhar prêmios, o cinema brasileiro precisa permanecer — nas telas, nos festivais, no imaginário coletivo e, sobretudo, como política de Estado.
Porque quando um filme brasileiro atravessa fronteiras, não vai sozinho. Ele leva consigo um país inteiro disposto a se ver, se pensar e se projetar para o mundo.
Por Neuton César
