ESTADOS UNIDOS – A queda da popularidade do presidente Donald Trump se transformou em um dos principais obstáculos para o Partido Republicano na reta final das eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro. Com maiorias estreitas no Congresso e crescente insatisfação dos eleitores com a economia e a guerra no Irã, republicanos entram nos dois últimos meses de campanha sob pressão.
Segundo análise publicada pela Reuters nesta segunda-feira (7), especialistas eleitorais consideram os democratas favoritos para reconquistar o controle da Câmara dos Representantes. Já a disputa pelo Senado permanece mais equilibrada e dependerá de vitórias democratas em estados tradicionalmente favoráveis a Trump.
A mais recente pesquisa Reuters/Ipsos mostra que a aprovação do presidente atingiu seu menor nível, enquanto sua desaprovação líquida é quase duas vezes superior à registrada no mesmo período de 2018. Naquele ano, durante o primeiro mandato de Trump, os democratas conquistaram 40 cadeiras e retomaram o comando da Câmara.
O cenário ganha peso porque eleições de meio de mandato costumam funcionar como uma avaliação do presidente em exercício. No caso de Trump, cuja presença domina a política estadunidense há mais de uma década, analistas consideram que sua imagem tende a influenciar diretamente o desempenho dos candidatos republicanos.
Jessica Taylor, analista do Senado no Cook Political Report, aponta que o custo de vida ocupa hoje o centro das preocupações do eleitorado.
“Acho que existe uma percepção geral de que o presidente não está focado na questão número um para os eleitores, que é o custo de vida”, afirmou.
“Se você quer expressar sua insatisfação com o presidente, a única maneira de fazer isso durante as eleições de meio de mandato é votar contra o partido dele”, acrescentou.
Democratas veem chance de retomar a Câmara
Atualmente, os republicanos controlam a Câmara por uma margem mínima de 218 cadeiras contra 214 dos democratas. Todas as 435 vagas estarão em disputa em novembro.
Caso reconquistem a maioria, os democratas poderão ampliar significativamente a pressão política sobre a Casa Branca. Lideranças do partido já prometeram abrir investigações sobre episódios que classificam como casos de corrupção envolvendo Trump e sua administração.
O controle democrata também tornaria mais difícil a aprovação de projetos legislativos prioritários para o presidente, obrigando a Casa Branca a negociar com a oposição durante os dois últimos anos de mandato.
Além do desgaste de Trump, os democratas chegam à campanha com maior entusiasmo eleitoral. Pesquisas indicam participação mais elevada de seus eleitores em eleições especiais e primárias recentes.
Entre os eleitores registrados, os candidatos democratas aparecem cinco pontos percentuais à frente dos republicanos na preferência nacional.
A história também favorece a oposição. Desde 1938, o partido do presidente em exercício perdeu cadeiras na Câmara em todas as eleições de meio de mandato, com apenas duas exceções.
Senado apresenta cenário mais difícil
A situação no Senado é mais complexa para os democratas. Aproximadamente um terço das 100 cadeiras estará em disputa, mas o mapa eleitoral oferece vantagens estruturais aos republicanos.
Mesmo que vençam confrontos considerados difíceis na Geórgia, Maine, Michigan e Carolina do Norte, os democratas ainda precisariam conquistar ao menos dois entre quatro estados nos quais Trump venceu por dois dígitos em 2024: Alasca, Iowa, Ohio e Texas.
Uma eventual maioria democrata no Senado teria grande impacto sobre o restante do mandato de Trump. O partido poderia bloquear nomeações presidenciais, inclusive para a Suprema Corte, caso surja uma vaga.
Jesse Ferguson, estrategista democrata, afirmou que a vantagem nacional do partido não garante automaticamente o controle do Congresso.
“Não há dúvida de que os democratas vencerão o voto popular nacional”, disse.
“A questão é saber se essas barreiras estruturais os impedirão de conquistar a maioria.”
Republicanos apostam em mapas eleitorais e financiamento
Apesar do ambiente desfavorável, os republicanos mantêm vantagens importantes.
A redistribuição dos distritos eleitorais pode render ao partido até dez cadeiras adicionais na Câmara, após uma disputa incomum pela reformulação de mapas no meio da década.
O partido também dispõe de uma estrutura financeira poderosa. Embora candidatos democratas tenham arrecadado mais do que rivais republicanos em diversas disputas individuais, comitês nacionais republicanos e super PACs alinhados ao partido possuem vantagem financeira sobre organizações equivalentes democratas.
O próprio super PAC de Trump dispõe de aproximadamente US$ 400 milhões para financiar a campanha.
Republicanos também tentam transformar a disputa em um confronto ideológico, classificando candidatos democratas como socialistas ou comunistas.
O presidente da Câmara, Mike Johnson, definiu a estratégia como uma disputa de “contrastes”.
“Este é um ano de ‘Contraste para a América’”, afirmou, em referência à campanha republicana “Contrato com a América”, de 1994.
“É um contraste entre bom senso e loucura.”
Economia e políticas de Trump pesam em estados decisivos
A eficácia dessa estratégia, porém, é incerta diante da preocupação dos eleitores com preços e custo de vida.
Alguns estados decisivos para o controle do Senado enfrentam consequências diretas de políticas adotadas por Trump.
No Iowa, agricultores foram atingidos pela alta dos custos de energia e pelas tarifas comerciais impostas pelo governo. No Texas, criadores de gado reagiram negativamente à decisão de suspender impostos de importação sobre carne bovina estrangeira.
Michigan e Maine também podem sentir efeitos da escalada da disputa comercial entre os Estados Unidos e o Canadá.
Além da economia, a guerra contra o Irã aparece entre os temas que mais pressionam a avaliação presidencial. Saúde, guerra de Israel em Gaza e expansão dos centros de dados também devem ocupar espaço relevante nas campanhas estaduais.
Convenção republicana pode reforçar ligação com Trump
Os republicanos realizarão nesta semana uma convenção de meio de mandato considerada incomum. A intenção é mobilizar a base e destacar medidas do governo, entre elas os cortes de impostos aprovados durante a administração Trump.
O formato, no entanto, apresenta riscos. Trump discursará nas duas noites do evento, aumentando ainda mais a associação entre candidatos republicanos vulneráveis e o presidente.
Para analistas, restam apenas oito semanas para que o partido consiga mudar a percepção negativa sobre a economia e elevar a mobilização de sua base.
Kyle Kondik, especialista em eleições do Centro de Política da Universidade da Virgínia, resume a principal dúvida da reta final da campanha.
“Os republicanos conseguem aumentar um pouco mais seu entusiasmo?”, questionou.
“O outro lado da moeda é que não haja recuperação e que a queda da aprovação de Trump seja definitiva. Essa, para mim, é a grande questão da eleição.”
