PAÇO DO LUMIAR – A falsa moralidade política pode ser tão perigosa para a democracia quanto a própria corrupção das instituições.
Vivemos um momento em que parece ser mais fácil apontar o dedo para o adversário do que discutir os problemas reais do Brasil. Os “revoltados com tudo e com todos” ganharam espaço, transformando indignação em discurso político e, muitas vezes, substituindo argumentos por ataques, slogans e certezas absolutas.
Nesse ambiente, a política vai deixando de ser um espaço de construção coletiva para se transformar em um espetáculo permanente.
E nesse espetáculo, a fé também corre o risco de virar instrumento de poder.
É preciso ter cuidado quando Deus, família e prosperidade deixam de ser valores pessoais e passam a funcionar como marcas eleitorais. Mais preocupante ainda é quando aqueles que se apresentam como guardiões da moralidade fazem da ostentação de riqueza e poder uma demonstração de sucesso, enquanto milhões de trabalhadores continuam lutando diariamente para sobreviver.
Não há problema algum em falar de Deus. Não há problema algum em defender a família. Não há problema algum em desejar prosperidade.
O problema é transformar esses sentimentos em uma espécie de salvo-conduto político.
Quem questiona passa a ser inimigo. Quem discorda passa a ser contra Deus. Quem critica determinadas estruturas passa a ser acusado de querer destruir a família.
É assim que o debate público vai empobrecendo.
Enquanto isso, o Brasil real continua esperando respostas.
O trabalhador quer emprego. A mãe quer comida na mesa. O jovem quer oportunidade. O pequeno comerciante quer sobreviver. O aposentado quer dignidade. As periferias querem serviços públicos que funcionem.
Mas será que esses assuntos estão realmente no centro da nossa discussão política?
Ou estamos novamente sendo conduzidos para uma guerra de narrativas que interessa muito mais aos profissionais do poder do que à população?
Essa é uma pergunta que precisa ser feita.
Porque existe uma diferença enorme entre liberdade política e a promessa de uma liberdade que, na prática, apenas preserva privilégios.
Dizer ao pobre que ele precisa apenas “se esforçar” para vencer na vida é ignorar que milhões de brasileiros começam a corrida muitos quilômetros atrás daqueles que já nasceram com acesso a educação, patrimônio, influência e oportunidades.
Liberdade sem oportunidade pode ser apenas uma palavra bonita.
E democracia sem justiça social corre o risco de ser uma democracia onde todos podem votar, mas poucos realmente conseguem decidir os rumos do país.
Por isso, preocupa-me o ressurgimento de velhas estruturas políticas embaladas por novos discursos. Os velhos mecenas continuam encontrando espaço, agora vestidos com uma nova linguagem, mas sustentados por velhas práticas de poder.
Trocam-se os slogans. Mudam-se as estratégias. Renovam-se as imagens.
Mas, no fundo, permanece a mesma pergunta:
quem realmente se beneficia dessa política?
O trabalhador que acorda cedo e volta para casa exausto?
A família que depende de serviços públicos?
O jovem que procura o primeiro emprego?
Ou aqueles que há décadas circulam pelos corredores do poder, acumulando influência, patrimônio e aliados?
Talvez seja hora de parar de escolher políticos apenas pelo discurso que mais emociona.
Precisamos olhar para o que existe por trás do discurso.
Precisamos perguntar quem financia, quem lucra, quem manda e quem continua esperando.
O eleitor também precisa assumir seu papel
Nesta eleição, o povo não pode ser apenas plateia. O eleitor tem um papel fundamental na construção dos próximos caminhos do país.
É nas urnas que cada cidadão pode decidir se continuará dando espaço às velhas práticas ou se escolherá representantes verdadeiramente comprometidos com as necessidades da população.
Mais do que escolher quem fala bonito, quem provoca mais ou quem consegue mobilizar multidões nas redes sociais, é preciso escolher quem tem capacidade, compromisso e coragem para levar ao poder público as demandas de quem mais precisa.
É preciso eleger pessoas que compreendam que política não se faz apenas com discursos, mas com políticas públicas reais, capazes de transformar a vida daqueles que estão nas periferias, nas comunidades e nos bairros mais esquecidos.
O voto do trabalhador, do jovem, da mãe de família, do pequeno empreendedor e de todos aqueles que dependem de políticas públicas tem força.
Essa força precisa ser utilizada com consciência.
Uma eleição não deveria ser uma guerra entre “bons” e “maus”, entre “nós” e “eles”. Deveria ser uma oportunidade para discutir projetos, prioridades e, principalmente, o futuro de quem tem menos.
A democracia precisa de liberdade, sim.
Mas precisa também de consciência.
Porque quando a população deixa de discutir seus problemas concretos e passa a brigar apenas pelas narrativas construídas pelos donos do poder, alguém sempre ganha.
E quase nunca é o mais pobre.
No fim das contas, talvez a pergunta mais incômoda desta eleição seja justamente esta: estamos escolhendo um novo caminho para o Brasil ou apenas ajudando a velha política a trocar de roupa?
A resposta estará, sobretudo, nas mãos do eleitor.
POR Neuton César Doria
Editorial
A redação
BNC Artigo
