IMPERATRIZ – Para iniciarmos esse tema, vamos voltar um pouco na história e assim compreender que o negacionismo não é um acontecimento recente na história da humanidade, desde o tempo de Galileu a negação da ciência é uma prática que vai além do campo religioso e passa a ser um processo político e influente no comportamento dos indivíduos, podemos comparar o negacionismo em que estamos vivendo atualmente à resistência que Galileu enfrentou no século XVII. No dia 22 de junho de 1633, o astrônomo Galileu Galilei, considerado por muitos o criador do método científico, recebia sua sentença frente a um tribunal da Inquisição, pela acusação de defender o modelo de Copérnico, em que a Terra girava em torno do Sol. Galileu foi considerado um herético, forçado a repudiar as ideias heliocêntricas e sentenciado a prisão domiciliar, além de ter sua obra “Diálogo”, incluída no Índice de Livros Proibidos do Vaticano.

Negacionismo (do francês négationnisme) é a escolha de negar a realidade como forma de escapar de uma verdade desconfortável. Trata-se da recusa em aceitar uma realidade empiricamente verificável, sendo essencialmente uma ação que não possui validação de um evento ou experiência histórica.

Rejeitar, negar que um consenso exista na maioria das vezes é a evidencia de se omitir a um problema ou fato existente, fazendo isso de forma maciça, gerando ou levantando a dúvida sobre o que de fato está acontecendo.

Não apenas o Brasil, mas em várias partes do mundo o negacionismo vem tomando amplas proporções com a ajuda da internet e a comunicação horizontal; antes considerado atos isolados ou de grupos seletos de articuladores econômicos ou religiosos, passa a ser práticas cada vez mais comuns no governo e na sociedade, deixando de ser específico dos simpatizantes de teorias da conspiração e tornando-se uma espécie de reforço político para muitos governantes. Estamos vivendo um momento de ceticismo generalizado, em que o descrédito à ciência e órgãos importantes são temas de discursos “grosseiros” ridicularizados e ignorados por governantes, como é o caso de Donald Trump, que havia retirado os Estados Unidos do acordo de Paris, por meio do qual quase duzentos países haviam se comprometido em 2015 a tentar conter os prejuízos causados pelo aquecimento global; e de Jair Bolsonaro, que também comanda um governo contrário às ações para combater a mudança climática. Como afirma a revista Piauí (edição 161 | fevereiro_2020).

O negacionismo travestido de uma “política conservadora de direita”, como acontece no Brasil, por exemplo, replica a ignorância secular de uma sociedade ainda comandada por líderes políticos ou religiosos que perpetuam seu poder sobre boa parte da grande massa, massa essa que por sua vez na atualidade faz parte de uma grande estrutura de informação, as redes sociais, que precisam ser mais bem exploradas como ferramentas de informações e não um instrumento de desinformação da sociedade por grupos responsáveis pela disseminação de notícias falsas. Por outro lado, a ciência ou cientistas, jornalista e instituições sérias de pesquisas e comunicação passam a adicionar em seus papéis na sociedade o compromisso de informar a sociedade de forma eficaz sobre o que é ciência e o que não é ciência, o que é verdade e o que é inverdade, vivenciamos esse embate claramente neste momento de pandemia do Covid 19.

O Brasil, assim como o mundo, enfrenta uma crise sem precedentes, nunca antes vivenciada em toda história política, econômica e social, já enfrentamos várias crises, porém nenhuma com problemas excepcionais e que abrangesse desde as maiores autoridades até o cidadão comum e, dentro desse cenário, são várias as tentativas de negar os contextos existentes que fizeram ou fazem parte da trajetória histórica do homem.

O negacionismo histórico tem se tornado abrangente na nossa sociedade contemporânea, a sociedade da informação, comunicação e do conhecimento, o que nos faz inquirir quanto ao acesso indiscriminado da informação sem aprofundar a sua veracidade e fonte legítima, o que a distancia do processo do conhecimento e acaba contribuindo para o aumento da desinformação.

Podemos aqui citar várias situações atuais em torno do negacionismo, como: O negacionismo do Holocausto, que consiste em afirmar que o genocídio de judeus durante a segunda guerra mundial, o holocausto, não aconteceu, levantando dúvidas sobre o que realmente houve e que está registrado e reconhecido historicamente. A refutação da criação versus evolução, ou o negacionismo em tono da existência do HIV/SIDA ou AIDS, ou que se trata apenas de um vírus passageiro e ainda o negacionismo da atualidade, que gira em torno da recusa ao aceitar as mudanças climáticas, por exemplo, ou o negacionismo histórico brasileiro da ditadura militar e por fim o negacionismo da COVID-19 referindo-se ao posicionamento daqueles que negam a realidade da pandemia do corona vírus e que as mortes não estão acontecendo da maneira ou nas proporções cientificamente reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde.

Todas as menções atribuídas à negação da realidade ou manipulação dos fatos têm provocado um processo de desinformação cada vez mais amplo atingindo todas as esferas sociais, a dúvida tem se tornado um exercício contínuo das notícias falsas compartilhadas a todo instante pelas redes sociais.   Com a pandemia do novo corona vírus, as fake News deram lugar a uma forma natural da mentira, ou a simples negação da realidade, fenômeno esse que acontece de forma coletiva e instantânea, replicada e triplicada simultaneamente por robôs virtuais ou pela própria população, o que nos faz crer que estamos vivendo a hera da “pós-verdade”.

Observando pelo ponto de vista do princípio do negacionismo, ou seja, de invalidar a realidade pela sua simples negação, podemos afirmar que estamos vivendo um momento de dúvidas e insegurança nos processos de informações.

Por fim, o negacionismo está relacionado com a descoberta freudiana acerca da negação, Verneinung (Freud, 2014), a capacidade psíquica do sujeito de negar desejos reprimidos. Como diz Freud, “Negar algo no juízo no fundo significa: isto é uma coisa que eu preferiria reprimir” (2014, p. 23).  Como afirma Dunker e Swako, é certamente possível propor diagnósticos políticos e sociais acerca dos desejos reprimidos subjacentes à defesa incondicional de teses negacionistas (Dunker, 2020; Swako, 2020), mas não se pode desconsiderar que o negacionismo é, ele mesmo, um fenômeno político e social, ainda que sua análise requeira reconhecer a importância central dos afetos, emoções e desejos na sua constituição e propagação (Bucci, 2019).

O que nos faz questionar sobre a intenção de fazer do negacionismo uma ferramenta de manipulação com objetivos políticos, com respaldo de parte da sociedade.

A forma que a sociedade se organiza em torno de seus costumes, cultura, hábitos e até mesmo a ética podem influenciar e fomentar o negacionismo e contribuir para diferentes tipos de comportamentos de milhares de pessoas que produzem novas realidades e conceitos de uma sociedade integralizada, além de trazer consequências reais e que terão que ser superadas por todos, independente de quem falhou, é o que tem acontecido indiscriminadamente na Pandemia de Covid 19.

Portanto os efeitos sociais e políticos são inegáveis e podem trazer consequências derivadas da coesão social de disseminação de teses negacionistas, tornando parte de um mundo paralelo à realidade de uma sociedade ampla e que necessita de esclarecimentos eficazes por partes de seus líderes políticos para melhor conduzir as inúmeras situações que as consomem.

É no mínimo confusa uma nação governada por líderes que representam o senso comum ou o imediatismo, não ceder espaço ao diálogo aberto comprovado e claro é condicionar o País a uma crise da verdade, polarizar a dúvida é minimizar a importância das universidades, das pesquisas e centros científicos que estudam há décadas questões importantes do planeta e da vida.

O senso comum ou movimentos anticientíficos vêm crescendo na população, principalmente em países governados por líderes de extrema direita, como é o caso do Brasil neste momento. Uma pesquisa do Datafolha divulgada em dezembro passado mostra um claro exemplo do negacionismo institucional em que vivemos, a pesquisa aponta que diante de uma afirmação do ministro do Meio Ambiente que, “não considera o aquecimento global um problema prioritário para sua pasta”, ainda assim 27% dos entrevistados consideram essa afirmação ótimo ou bom e 38% regular, o que indica um número alto de indiferença à realidade por parte da população.

Ainda segundo (Bucci, 2019), o negacionismo tende a se intensificar e a se multiplicar no mundo todo no contexto contemporâneo da pós-verdade, caracterizado como aquele “[…] ambiente em que os fatos objetivos têm menos peso do que apelos emocionais ou crenças pessoais em formar a opinião pública”. O fenômeno da pós-verdade está diretamente relacionado com a crise de autoridade que abalou a confiança da população nos mediadores tradicionais, particularmente a mídia, que estabelecia a comunicação entre cientistas, poder público e as pessoas. Com a intensificação do uso das redes sociais, tornou-se fácil e rotineiro descartar a verdade factual (Bucci, 2019), produzida a partir de critérios compartilhados e avalizados consensualmente, multiplicando-se as mentiras, os boatos e as informações fraudulentas (fake news), por meio de uma comunicação direta, simples, acessível e fortemente carregada de aspectos emocionais, os quais transformam o receptor em um agente disseminador da desinformação, segundo Eugênio Bucci (2019).

As redes sociais e a comunicação horizontal serão responsáveis pelas ações positivas ou negativas nesse processo que corresponde a falsidades, verdades, ética, bom senso, autocrítica, responsabilidade e a busca pelo conhecimento que difunde a liberdade do homem.

Eis a importância do papel e consciência de cada cidadão com o compromisso de combater a mentira com a verdade fundamentada em todos os contextos, seja ele político, científico, econômico social moral e ético, cabe a cada um fazer sua parte nessa nova pagina da historia.

“Você pode ignorar a realidade, mas não pode ignorar as consequências de ignorar a realidade”. Ayn Rand

Referenciais bibliográficos

BUCCI, Eugênio. Existe Democracia sem Verdade Factual? Cultura política, imprensa e bibliotecas públicas em tempos de fake news. Barueri: Estação das Letras e Cores, 2019. Edição do Kindle. [ Links

BBC News Brasil

Datafolha Dez. 2020. Pesquisa aprovação publica das ideias do ministro do meio ambiente, Ricardo Salles.

DUNKER, Christian. A Arte da Quarentena Para Principiantes. São Paulo: Boitempo Editora, 2020.

SWAKO, José Leon. O Que Nega o Negacionismo? A Terra é Redonda. 2020. Disponível em: <Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/o-que-nega-o-negacionismo/#_edn1 >. Acesso em: 21 Dez. 2021.

Márcia Castelo Branco – Administradora de marketing, mestre em educação, professora, escritora e membro da Academia Açailandense de Letras.

Fonte: Noticias da Região Tocantina

BNC Municípios

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