A eleição vai terminar?

SÃO PAULO – Daniel Silveira foi a pessoa certa no lugar certo e na hora certa. Agiu de forma imprudente, solitário e sem medir as consequências? Pouco provável.  A “graça” foi concedida de última hora ou fez parte de uma estratégia bem delineada?

Assumir o risco com um peão para defender a linha definida faz parte do jogo. Pouco importa o debate jurídico e os desdobramentos que o caso terá. O objetivo político foi cumprido. Bolsonaro unificou e elevou o moral de sua tropa. Reafirmou a sua liderança.

O líder das pesquisas para o Senado no Rio de Janeiro foi condenado a mais de 8 anos de cadeia por ameaçar o STF. Para os bolsonaristas, o STF é um dos principais responsáveis por impedir o avanço da revolução prometida pelo capitão, mais um dos entulhos da redemocratização a ser removido.

Na impossibilidade de caçar judeus, eles vão conduzindo a democracia para a câmara de gás. É impressionante que depois de quase quatro anos de governo e pendurado no Centrão, o presidente consiga manter intacta sua imagem de “cavaleiro antiestablishment”.

É também impressionante que a esquerda continue jogando como se estivesse numa partida convencional. Lula continua favorito, claro. O ex-presidente apresenta uma liderança folgada no segundo turno. Não cairá dos seus pouco mais de 40%, assim como Bolsonaro deverá manter com ele cerca de 1/3 do eleitorado.

A disputa será no campo das rejeições. E para fazer a rejeição de Lula subir, a extrema-direita sabe que necessita inflamar o país. Caminhamos para a eleição mais radicalizada da história. Com o fascismo operando com criptomoedas a partir de fazendas de robôs na Ásia, o país será instado a se matar nas ruas.

Se a estratégia do presidente parece clara, seus opositores ainda parecem patinar. Jogar parado pode ser suficiente? Talvez sim, talvez não.

A Frente de Esquerda construída até aqui é suficiente?  Transformar Alckmin no “companheiro cutista” ou ir ao público onde o ex-governador é ouvido pelos que não costumam nos ouvir? Qual o projeto da Frente liderada por Lula? Um “revival’ de 2002?

Basta falar de combate à fome com pitadas de identitarismo? Como unir o país em torno da democracia, da redução das desigualdades e do desenvolvimento nacional?

O tempo histórico é de Lula. Como a história não é feita  de vontades, só ele pode enfrentar estas questões.

Mas é bom lembrar que as revoluções ou os golpes – cada um escolhe o que melhor lhe convém – nunca foram levados a cabo por maiorias. São minorias muito organizadas, mobilizadas e dispostas a pagar qualquer preço que costumam promover assaltos ao poder.

Dada a situação nacional, parece um conto de fadas acreditar que Bolsonaro vai entregar a faixa a Lula no início de janeiro e se dirigir pacificamente junto com seus filhos para a penitenciária da Papuda.

A esta altura, ganhar nas urnas é só uma parte do problema. Quantos mecanismos de contestação existem? Eles estão dispostos a tudo. A eleição vai terminar?

Por Ricardo Cappelli

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