Há na baixada uma terra santa

Um verso do magistral João do Vale diz “Minha terra tem beleza/ Que em versos não sei dizer/ Mesmo porque não tem graça/ Só se vendo pode crer”. A voz poderosa de Alcione, que a gravou, dá à letra um tipo de vida exuberante,que ecoa nos corações dos que aouvem, ainda mais se se tratar de um maranhense que replique a letra em imagens mentais que se tornam doce saudade, a mover emoções antigas que cada um carrega em sua história.É assim que lembro as Reentrâncias Maranhenses e, em particular, o trecho de minha cidade natal, Cururupu.

Ao falar, no artigo anterior, sobre eucaristia e cuidado com a terra, inevitável foi a lembrança que me ocorreu da terra que me viu nascer e crescer. Ali está fincado um mundo regido pelas águas que guardam estreita intimidade com o continente, de tal sorte que não se pode saber quem abraça quem. Há algo de íntimo nessas línguas de águas que se afunilam delicadamente, formando um imenso e majestoso mosaico, quase intocado.  Se digo intocado,  refiro-me a nós citadinos, eu mesmo inclusive que carrego aqueles mares, riachos e igarapés como veias em mim. Movimento perpétuo que acolhe a vida em seu seio e esta alimenta toda essa gente.

Cururupu integra a riquíssima região da baixada maranhense – e aqui abro um espaço para saudar a nobre iniciativa do conterrâneo Flávio Braga, idealizador do Fórum em Defesa da Baixada Maranhense, voltado para a preservação e valorização daquele pedaço de chão – onde as grandes florestas de mangue são como guardiãs daquele namoro térreo-marinho com suas raízes aéreas, os pneumatóforos, que fazem parecer delicada a sustentação da árvore e, entrelaçados entre si, lhes dão a aparência de que flutuam sobre a lama. Imaginem um fim de tarde ali, marcado pela algazarra de garças e guarás que se empoleiram para dormir. São como manchas brancas e vermelhas flutuando sobre um verde-mangue que se perde de vista.

Mas repentinamente o manguezal se afasta e dá lugar a lençóis de areia branquíssima: é como se neve tivesse caído daquele céu de um azul profundamente relaxante. Há qualquer coisa de infinito naquelas paisagens. Um chamado hipnotizante para deixar-se estar de forma permanente como se nós mesmos, seus alumbrados filhos, a nos tornarmos caiçaras perpétuos, não como a mulher de Ló, estátua de sal, mas mais um ente vivo entre todos os que ali vivem.

Se nos distanciamos um pouco do mar, encontramos florestas de árvores esguias e elegantes, como se sentíssemos a mudança para uma Amazônia que está ali ao lado. As várzeas, que nelas se confundem,  novamente nos levam para o reino das águas, agora doces ou salobras. Em cada um desses mundos, tão próximos naquele recorte do Maranhão, o homem se adapta, como se fosse um camaleão a mudar de cor, mimetizado no meio ambiente. Estes homens e mulheres, encardidos das cores, sons e histórias que inventaram, para explicar os segredos do lugar, transformam essas informações, que se pode apreender no viver ali, em festas, música, um teatro vivo permanente, que se manifesta em seus dias santos que ajudam a marcar a passagem de um tempo lento e tranquilo como o próprio lugar.

Sim, leitores, como diziam meu saudoso pai e o desembargador Pires da Fonseca, Cururupu é uma autêntica terra santa encravada na baixada maranhense.

Natalino Salgado Filho, MD.PhD
Professor Titular de Medicina da UFMA
Chefe do Serviço de Nefrologia do Hospital Universitário da UFMA
Coordenador da Pesquisa Clinica em Nefrologia do HUUFMA
Coordenador da Liga de Afecções Renais do HUUFMA

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